Vibração por desmonte de rochas e a NBR 9653:2018
Como monitorar vibração e pressão acústica de detonações em minerações e obras perto de áreas habitadas, com a NBR 9653:2018 como guia e sismógrafos bem posicionados.
Detonações em minerações, pedreiras e obras de infraestrutura geram dois efeitos que a vizinhança percebe de imediato: o tremor no chão e o estrondo transmitido pelo ar. Mesmo quando o desmonte é bem executado, esses efeitos provocam sustos, reclamações e, não raro, alegações de danos em imóveis. A resposta técnica a essas situações depende de medição feita da forma certa, detonação por detonação.
A ABNT NBR 9653:2018 é o guia de referência para avaliar os efeitos do desmonte de rochas com explosivos em áreas próximas a ocupação humana. A seguir estão as grandezas medidas, o modo de posicionar os sismógrafos, o que deve constar em cada registro e como a medição se integra à relação com a comunidade.
O que a NBR 9653:2018 avalia
A norma orienta a avaliação de duas grandezas geradas pela detonação:
- Velocidade de vibração de partícula: a velocidade com que o terreno oscila quando a onda sísmica passa pelo ponto de medição. É medida em três componentes ortogonais (longitudinal, transversal e vertical), e a análise considera o valor de pico e a frequência dominante.
- Pressão acústica (sobrepressão atmosférica): a variação de pressão no ar provocada pela detonação, que se propaga como uma onda de choque e chega antes de se dissipar. É o que faz janelas vibrarem e portas baterem, mesmo quando a vibração do solo é baixa.
A frequência importa tanto quanto a amplitude. Estruturas respondem de forma diferente a vibrações de frequências diferentes, e vibrações de baixa frequência tendem a ser mais críticas para edificações. Por isso a avaliação não se resume a um número de pico: ela combina o pico e a frequência associada, comparando o resultado com o critério da norma ou com o valor definido na licença.
Por que a vibração varia tanto entre detonações
Dois desmontes na mesma frente podem gerar registros bem diferentes. Os fatores que mais pesam são:
- Carga por espera: a quantidade de explosivo detonada no mesmo instante. É o principal fator de controle da vibração, mais do que a carga total do fogo.
- Distância até o ponto de medição: a vibração diminui com a distância, e a relação entre carga e distância é usada para planejar os fogos seguintes.
- Sequência de retardos: intervalos mal dimensionados podem sobrepor ondas e aumentar o pico.
- Geologia: fraturas, mudanças de litologia, solo de cobertura e nível d'água alteram a transmissão das ondas.
- Tamponamento e confinamento: furos mal tamponados liberam gases para a atmosfera e aumentam a pressão acústica.
- Condições atmosféricas: vento e inversão térmica podem levar a sobrepressão mais longe em determinadas direções.
Esse conjunto explica por que o monitoramento precisa ser sistemático. Um registro isolado não diz se o plano de fogo está sob controle.
Há ainda uma diferença prática entre minerações e obras. Na mineração, a frente de lavra se desloca aos poucos e a relação com a vizinhança é de longo prazo, o que favorece a construção de um histórico extenso de registros. Em obras de infraestrutura, como cortes de estrada, túneis e fundações em rocha, o desmonte costuma ser temporário, mas pode acontecer muito perto de casas, redes de água e outras estruturas. Nesse caso, o planejamento dos pontos de medição deve começar antes do primeiro fogo, junto com a vistoria dos imóveis do entorno.
Onde e como posicionar os sismógrafos
O sismógrafo de engenharia combina um geofone triaxial, que mede a vibração do solo, e um microfone, que registra a pressão acústica. A qualidade do registro depende mais da instalação do que do equipamento.
Escolha do ponto
O ponto de medição deve representar a estrutura que se quer proteger: em geral, a edificação habitada ou sensível mais próxima da frente de lavra, ou o imóvel de quem reclamou. Em operações com frentes que mudam ao longo do tempo, a rede de pontos precisa ser revista conforme a lavra avança. Também vale considerar estruturas sensíveis que não são residências, como igrejas antigas, reservatórios, encostas e barragens.
Acoplamento ao terreno
O geofone precisa estar firmemente acoplado ao solo ou à estrutura. Se ele estiver solto, apoiado em grama, sobre piso cerâmico solto ou em terreno fofo, o sensor pode se deslocar durante a passagem da onda e registrar valores irreais. A fixação é feita por enterramento, cravação, ancoragem ou peso sobre o sensor, conforme o tipo de superfície. A orientação do geofone em relação à detonação também deve ser registrada.
Microfone
O microfone fica fora de abrigos e longe de superfícies que reflitam o som, com proteção contra vento. Rajadas fortes geram registros falsos de pressão acústica.
Faixa de medição
O equipamento precisa cobrir a faixa esperada no ponto. Os sismógrafos usados pela GeoAvaliar medem velocidade de vibração de partícula de 0,084 a 100 mm/s, na faixa de frequência de 2 a 250 Hz, e pressão acústica de 88 a 142 dBL. O nível de disparo (gatilho) é ajustado para que o equipamento registre a detonação sem ser acionado por qualquer caminhão que passe por perto.
O registro de cada detonação
Um registro útil é aquele que pode ser relacionado ao fogo que o gerou. Para cada detonação, o relatório deve reunir:
- data, hora e identificação do fogo;
- localização da frente e do ponto de medição, com coordenadas e distância entre eles;
- dados do plano de fogo: número de furos, carga total, carga máxima por espera, sistema de iniciação e sequência;
- os valores de pico de velocidade nas três componentes, a frequência associada e a pressão acústica;
- as formas de onda, que permitem verificar se o registro é da detonação ou de outro evento;
- condições do tempo no momento da detonação;
- a comparação com o critério da NBR 9653:2018 ou com o valor definido na licença;
- a identificação e o certificado de calibração do equipamento.
Com o histórico organizado, a empresa consegue estabelecer a relação entre carga por espera, distância e vibração para a sua própria geologia. Essa relação é a base técnica para ajustar o plano de fogo quando a lavra se aproxima de áreas habitadas.
Comunicação com a vizinhança
A medição técnica resolve parte do problema. A outra parte é a percepção. Pessoas sentem vibrações muito abaixo dos níveis que causam dano a edificações, e o susto de uma detonação sem aviso gera mais reclamações do que o próprio tremor. Algumas práticas reduzem conflitos:
- Aviso prévio e horários regulares: detonar em horários previsíveis, informados à comunidade, diminui o susto e a sensação de descontrole.
- Vistoria cautelar dos imóveis: registrar, com fotos e descrição, as fissuras existentes nas casas próximas antes do início ou da ampliação das detonações. Sem esse registro, qualquer fissura passa a ser atribuída ao desmonte.
- Medição no imóvel de quem reclama: instalar o sismógrafo na casa do reclamante, com acompanhamento do morador, dá transparência e transforma a discussão em dados.
- Canal de contato: um responsável que receba as reclamações, registre data e hora e consiga cruzar com o registro da detonação correspondente.
- Devolutiva: informar ao morador o resultado da medição, em linguagem acessível, mostrando o que foi medido e com o que foi comparado.
Desmonte e outras fontes de vibração
Nem toda vibração em área de mineração ou obra vem de explosivos. Britadores, peneiras vibratórias, compactadores, bate-estacas e tráfego de caminhões pesados geram vibrações contínuas ou repetitivas, que são avaliadas com outra abordagem. Para esse tipo de fonte, a Decisão de Diretoria CETESB 215/2007/E, Anexo I, é uma referência usada na avaliação do incômodo. Separar as fontes evita conclusões erradas e direciona o controle para o que realmente está causando o problema.
O estrondo da detonação também não se confunde com o ruído contínuo da operação, que é avaliado pela ABNT NBR 10151:2019 em uma medição de ruído ambiental. Em muitas minerações, os dois monitoramentos são exigidos na mesma licença.
Como a GeoAvaliar pode ajudar
A GeoAvaliar realiza monitoramento de vibração ambiental em detonações e em fontes contínuas, com escopo acreditado pela Cgcre segundo a ABNT NBR ISO/IEC 17025. A equipe ajuda a definir os pontos de medição, instala e opera os sismógrafos e entrega relatórios que relacionam cada registro ao plano de fogo. Quando o tema faz parte de um processo de licenciamento mais amplo, a assessoria ambiental pode organizar as condicionantes e os relatórios. Para planejar o monitoramento, fale com a equipe.
Perguntas frequentes
O monitoramento precisa ser feito em todas as detonações?
Depende do que a licença, o plano de fogo e o órgão ambiental exigem. Em áreas com vizinhança próxima, o registro sistemático de todas as detonações é a prática mais segura, porque cria um histórico que responde a reclamações e mostra a evolução do controle ao longo do tempo.
Rachaduras em casas vizinhas são sempre causadas pelas detonações?
Não. Fissuras surgem também por recalque do terreno, variação de umidade, dilatação térmica, falhas construtivas e tráfego pesado. Por isso a vistoria prévia dos imóveis e os registros de vibração de cada detonação são tão importantes: eles permitem comparar o estado anterior com o posterior e verificar se os níveis medidos são compatíveis com o dano alegado.
O sismógrafo mede também o barulho da detonação?
Os sismógrafos de engenharia usados em desmonte costumam ter um canal de microfone que registra a pressão acústica, também chamada de sobrepressão atmosférica. Essa grandeza é diferente do ruído avaliado pela NBR 10151, que trata de som contínuo em áreas habitadas.
Vibração de máquinas e tráfego segue a mesma norma?
Não. A ABNT NBR 9653:2018 é voltada ao desmonte com explosivos. Para vibrações contínuas ou intermitentes geradas por equipamentos e atividades, uma referência usada é a Decisão de Diretoria CETESB 215/2007/E, Anexo I, que trata de incômodo causado por vibração.
O que fazer quando um registro fica acima do valor definido na licença?
Registrar a ocorrência, revisar o plano de fogo daquela detonação (carga por espera, sequência de retardos, tamponamento, geometria) e ajustar os parâmetros para as próximas. A análise conjunta dos registros e do plano de fogo costuma mostrar o que mudou em relação às detonações que ficaram dentro do esperado.
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