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Qualidade da Água

Parâmetros de campo na amostragem de água

Por que pH, temperatura, condutividade elétrica e oxigênio dissolvido são medidos no local da coleta, o que cada um indica e como a calibração das sondas afeta o laudo.

22/10/2026
7 min de leitura
Rafael Salles, Coordenador Financeiro Técnico (CREA-MG 1420567110)
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Em toda campanha de qualidade da água, antes de as amostras seguirem para o laboratório, quatro parâmetros são medidos no próprio ponto de coleta: pH, temperatura, condutividade elétrica e oxigênio dissolvido. Eles aparecem nas primeiras linhas do laudo e, muitas vezes, recebem menos atenção do que as análises de laboratório. É um equívoco, porque são eles que descrevem a condição da água no momento em que ela foi amostrada.

Este texto explica por que essas medições são feitas em campo, o que cada parâmetro indica, como a calibração das sondas afeta a confiabilidade do resultado e como esses números se relacionam com o enquadramento dos corpos d'água e com o laudo final. O atendimento de campo da GeoAvaliar para água é feito em Minas Gerais.

Por que medir no local da coleta

A água começa a mudar assim que sai do ambiente em que estava. Dentro do frasco, ela troca gases com o ar que ficou no espaço livre, aquece ou esfria até a temperatura ambiente e continua tendo atividade biológica de microrganismos e algas.

Esses processos afetam diretamente os parâmetros de campo:

  • O oxigênio dissolvido pode entrar ou sair da água conforme a agitação e a diferença de temperatura, e é consumido por microrganismos.
  • O pH muda com a perda ou o ganho de gás carbônico, sobretudo em águas pouco tamponadas.
  • A temperatura deixa de representar o ambiente em poucos minutos.
  • A condutividade é mais estável, mas depende da temperatura e precisa ser lida nas mesmas condições.

Por isso o APHA Standard Methods, na 24ª edição de 2023, indica a determinação imediata desses parâmetros. Uma medição feita horas depois, no laboratório, mede outra água.

O que cada parâmetro indica

pH

Mostra se a água está ácida, neutra ou alcalina. Variações em relação ao padrão natural do corpo d'água podem indicar lançamento de efluente industrial, drenagem ácida de áreas mineradas, influência de calcário, atividade fotossintética intensa ou problemas de tratamento em ETA e ETE. O pH também condiciona a forma química de metais e da amônia, influenciando a interpretação de outros resultados.

Temperatura

Afeta a solubilidade do oxigênio, a velocidade das reações químicas e a atividade biológica. Uma temperatura acima do esperado para o ponto pode indicar lançamento de água de resfriamento ou efluente aquecido. A temperatura também é necessária para corrigir a leitura de condutividade e de oxigênio dissolvido.

Condutividade elétrica

Mede a capacidade da água de conduzir corrente, que depende da quantidade de íons dissolvidos. Não identifica qual substância está presente, mas é um indicador rápido de mudança: um aumento entre o ponto a montante e o ponto a jusante de um lançamento sugere contribuição de sais, efluente ou lixiviado. Em águas subterrâneas, ajuda a identificar plumas e diferenças entre aquíferos.

Oxigênio dissolvido

É um dos indicadores mais diretos da condição ecológica de um rio ou lago. Valores baixos indicam consumo por matéria orgânica, como ocorre a jusante de lançamentos de esgoto, ou estratificação em reservatórios profundos. Em ETEs, o oxigênio dissolvido mostra se o processo biológico está funcionando como previsto.

Calibração e verificação das sondas

A medição em campo é feita com sondas eletrônicas, individuais ou multiparâmetro. Um resultado só tem valor se o instrumento estiver calibrado e verificado. Na rotina de uma campanha bem conduzida:

  • pH: calibração com soluções-tampão certificadas, em mais de um ponto, cobrindo a faixa esperada, e verificação com uma solução de controle.
  • Condutividade: calibração com solução-padrão de condutividade conhecida e compensação automática de temperatura conferida.
  • Oxigênio dissolvido: calibração conforme o tipo de sensor, por exemplo em ar saturado de umidade, com correção pela pressão atmosférica do local, e verificação de zero quando aplicável.
  • Temperatura: comparação com termômetro de referência calibrado.

A calibração é feita antes da campanha e verificada durante e depois dela. Se a verificação final mostrar desvio além do aceitável, os resultados do período ficam comprometidos. Tudo isso precisa estar registrado, com a identificação das soluções usadas, os lotes e as validades. Em um laudo emitido por laboratório acreditado, esses registros sustentam a rastreabilidade do resultado e podem ser solicitados em auditoria.

Como a medição é feita em cada tipo de ponto

O procedimento muda conforme o local:

  • Rios e córregos: a sonda é posicionada em um trecho com fluxo, longe das margens, de remansos e da saída imediata de lançamentos, a não ser que o objetivo seja justamente caracterizar a mistura.
  • Lagos e represas: pode ser necessário medir em mais de uma profundidade, porque temperatura e oxigênio variam na coluna d'água.
  • Poços, nascentes e piezômetros: em poços, a água parada no revestimento é renovada antes da coleta, e os parâmetros de campo são acompanhados até se estabilizarem. Essa estabilização é o sinal de que a água medida representa o aquífero.
  • ETA, ETE e sistemas industriais: os pontos seguem o fluxo do processo (entrada, etapas intermediárias, saída), e a medição registra a condição da operação naquele momento.

Em qualquer caso, a ficha de campo registra data, hora, coordenadas, condições do tempo, aspecto da água, leituras e eventuais ocorrências, como chuva recente ou obras a montante.

Erros que comprometem os parâmetros de campo

Boa parte dos resultados questionados em relatórios de monitoramento tem origem em falhas simples, que poderiam ser evitadas no planejamento:

  • Ler a sonda antes da estabilização. Os sensores, principalmente o de oxigênio dissolvido, precisam de tempo para responder. Registrar a primeira leitura que aparece no visor produz valores instáveis e difíceis de reproduzir.
  • Medir dentro do balde. Quando a medição é feita em um recipiente depois da coleta, a água já trocou gases com o ar e mudou de temperatura. Sempre que o ponto permitir, a sonda deve ficar imersa diretamente no corpo d'água.
  • Pular a verificação final. Sem a conferência das sondas ao fim do dia, não há como demonstrar que as leituras da tarde são tão confiáveis quanto as da manhã.
  • Ignorar mudanças no ponto. Um ponto de coleta deslocado alguns metros para um remanso ou para perto de um lançamento produz um resultado que não pode ser comparado com a série histórica. As coordenadas e as fotos ajudam a manter a mesma posição entre campanhas.
  • Não registrar chuva recente. Chuvas alteram condutividade, temperatura e oxigênio. Sem essa informação, uma variação natural pode ser lida como impacto da empresa.

Relação com o enquadramento e com o laudo

Os parâmetros de campo entram na comparação com a legislação aplicável a cada tipo de água:

  • Águas superficiais: a CONAMA 357/2005 classifica as águas doces em classe especial e classes 1 a 4, com condições e padrões para cada classe. O pH e o oxigênio dissolvido estão entre os parâmetros com valores definidos por classe.
  • Efluentes: a CONAMA 430/2011 trata das condições e padrões de lançamento, e o pH e a temperatura do efluente estão entre as condições verificadas.
  • Águas subterrâneas: a CONAMA 396/2008 trata da classificação e das diretrizes para o enquadramento.
  • Água para consumo humano: a Portaria GM/MS 888/2021 define os procedimentos de controle e vigilância da potabilidade.

No laudo, a comparação deve ser feita com o limite fixado na resolução aplicável ou com o valor definido na licença, respeitando a classe do corpo d'água. Os parâmetros de campo também ajudam a explicar outros resultados: um oxigênio dissolvido baixo combinado com DBO elevada, por exemplo, aponta para carga orgânica.

Quando a licença também pede dados hidrológicos, a medição de vazão de rios e as medidas em piezômetros podem ser programadas na mesma campanha, o que permite calcular cargas e entender o fluxo subterrâneo.

Escopo acreditado e serviços complementares

O escopo acreditado pela Cgcre segundo a ABNT NBR ISO/IEC 17025, no caso da água, abrange a amostragem (em rios, lagos, represas, poços, nascentes, ETA, ETE e sistemas industriais) e os parâmetros de campo pH, temperatura, condutividade elétrica e oxigênio dissolvido.

As demais análises, como DBO, DQO, metais, óleos e graxas e ensaios microbiológicos, são oferecidas como serviço complementar e estão fora do escopo de acreditação. Essa distinção deve aparecer com clareza no laudo, para que o órgão ambiental saiba quais resultados são cobertos pela acreditação.

Como a GeoAvaliar pode ajudar

A GeoAvaliar realiza amostragem e medições de qualidade da água com equipe de campo em Minas Gerais, sondas calibradas e registros completos de cada ponto. A empresa pode enviar a condicionante e a lista de pontos para que a campanha seja planejada com os parâmetros, a frequência e a logística corretos. Detalhes sobre o escopo estão na página de acreditação Cgcre.

Perguntas frequentes

Posso coletar a água e medir o pH no laboratório no dia seguinte?

Para fins de laudo, não é o recomendado. O pH, o oxigênio dissolvido e a temperatura mudam depois da coleta por troca de gases com o ar, variação de temperatura e atividade biológica. Por isso os métodos de referência indicam a medição imediata, no próprio local.

Os parâmetros de campo substituem as análises de laboratório?

Não. Eles mostram a condição da água no momento da coleta e ajudam a interpretar os demais resultados, mas não informam sobre matéria orgânica, nutrientes, metais ou contaminação microbiológica. Essas análises são feitas em laboratório, a partir das amostras preservadas na coleta.

A GeoAvaliar atende fora de Minas Gerais na amostragem de água?

Não. O atendimento de campo para amostragem de água, medição de vazão de rios e medidas em piezômetros é feito somente em Minas Gerais.

Qual a diferença entre a medição em rio e em poço?

No rio, a sonda é posicionada em um ponto representativo do fluxo, longe das margens e de zonas paradas. No poço ou piezômetro, a água parada no revestimento precisa ser renovada antes da coleta, e os parâmetros de campo são acompanhados durante a purga até se estabilizarem, o que indica que a água medida representa o aquífero.

A empresa precisa fornecer algo para a campanha de amostragem?

Sim. A lista de pontos com coordenadas, o acesso liberado, as chaves de poços e piezômetros, as condições de segurança para margens e reservatórios e a cópia da condicionante com os parâmetros exigidos. Em pontos internos de ETE ou de sistemas industriais, também a autorização e o acompanhamento de alguém da operação.

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