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Amostragem isocinética em chaminés: como funciona

Entenda o que é isocinetismo, por que a velocidade de sucção precisa acompanhar a do gás e como preparar a chaminé para uma campanha de material particulado.

19/10/2026
7 min de leitura
Rafael Salles, Coordenador Financeiro Técnico (CREA-MG 1420567110)
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Quem opera caldeira, forno, secador ou britagem com exaustão para a atmosfera conhece a condicionante: medir material particulado na chaminé com a periodicidade definida na licença. O que nem sempre fica claro é por que essa medição tem um nome próprio, amostragem isocinética, e por que pequenos desvios de procedimento podem tornar um laudo inútil perante o órgão ambiental.

Este texto explica o princípio do isocinetismo, o que muda no resultado quando ele não é respeitado, quais parâmetros auxiliares acompanham a coleta e o que a empresa precisa deixar pronto antes de a equipe chegar.

O que significa isocinetismo

Isocinético quer dizer "mesma velocidade". Na amostragem de material particulado, uma sonda com um bocal calibrado é introduzida no duto e aspira uma fração do gás. A condição isocinética é atingida quando a velocidade do gás que entra no bocal é igual à velocidade do gás que passa naquele ponto do duto.

A razão é física. Partículas têm massa e, portanto, inércia. Os gases mudam de direção com facilidade para entrar ou contornar o bocal, mas as partículas maiores tendem a seguir em linha reta. Se as linhas de fluxo forem perturbadas na entrada da sonda, a proporção de partículas que entra no bocal deixa de representar a proporção real do gás.

Por isso a amostragem isocinética exige acompanhar continuamente a velocidade no duto e ajustar a vazão de sucção do trem de amostragem ponto a ponto. Gases e vapores se misturam de forma homogênea e não sofrem esse efeito, motivo pelo qual a coleta de CO, O2 ou NOx não depende do isocinetismo.

Quando a sucção não acompanha o gás

Os desvios têm efeitos opostos e conhecidos, ainda que sua intensidade dependa do tamanho das partículas presentes.

  • Sucção mais lenta que o gás (subisocinética): parte do gás que deveria entrar no bocal é desviada para fora, mas as partículas maiores, pela inércia, continuam entrando. A amostra fica enriquecida em partículas grossas e a concentração tende a ser superestimada.
  • Sucção mais rápida que o gás (superisocinética): o bocal puxa gás de uma área maior do que a sua seção, mas as partículas maiores dessa vizinhança não fazem a curva e passam direto. A amostra fica empobrecida em partículas grossas e a concentração tende a ser subestimada.
  • Partículas muito finas: acompanham bem o gás, de modo que o erro é menor. Em fontes com partículas grossas, como britagem, secagem de minério ou combustão de biomassa, o efeito do desvio é mais pronunciado.

Os métodos de referência estabelecem uma faixa de tolerância para a razão entre a velocidade no bocal e a velocidade no duto. Uma corrida fora dessa faixa não é válida e precisa ser repetida. Esse controle aparece no laudo como o percentual de isocinetismo de cada corrida, e o órgão ambiental costuma conferir esse número antes de olhar a concentração.

Parâmetros auxiliares que sustentam o cálculo

A massa de partículas coletada no filtro só vira concentração e taxa de emissão com um conjunto de medições complementares. Elas fazem parte do mesmo serviço de amostragem em fontes estacionárias.

Pontos de amostragem e perfil de velocidade

O gás não escoa com a mesma velocidade em toda a seção do duto. Junto às paredes ele é mais lento, e curvas, ventiladores ou reduções criam perfis assimétricos. Por isso a seção é dividida em áreas iguais e a coleta percorre vários pontos ao longo de diâmetros perpendiculares. O número de pontos depende da distância entre as tomadas e as perturbações a montante e a jusante. Quanto mais próximo de uma curva, mais pontos são necessários e maior o risco de fluxo ciclônico, que precisa ser verificado antes da coleta.

Velocidade e vazão

A velocidade é medida com tubo de Pitot tipo S e manômetro, acompanhada da temperatura do gás em cada ponto. Com a área da seção, obtém-se a vazão volumétrica. As normas ABNT NBR 11966 e os métodos CETESB e USEPA listados para dutos e chaminés tratam dessa etapa.

Umidade

O vapor d'água presente no gás altera a densidade e a vazão em base seca. A umidade é determinada pelo condensado recolhido nos frascos borbulhadores e pela sílica do trem de amostragem, ou por método específico, conforme a ABNT NBR 11967 e equivalentes.

Composição do gás: O2, CO2 e CO

A composição do gás seco entra no cálculo da massa molecular e, na maioria dos casos, na correção da concentração para o teor de oxigênio de referência fixado pela resolução aplicável. Sem essa correção, uma fonte com muito ar de diluição poderia parecer mais limpa do que é.

Como a campanha é conduzida

Uma campanha típica de material particulado segue uma sequência que se repete em cada chaminé:

  1. Verificação preliminar: conferência da geometria do duto, das tomadas e da plataforma, medição de pressão estática, temperatura e um perfil inicial de velocidade.
  2. Escolha do bocal: com a velocidade e a umidade estimadas, a equipe seleciona o diâmetro do bocal que permite manter o isocinetismo dentro da capacidade da bomba.
  3. Teste de vazamento: o trem de amostragem (bocal, sonda aquecida, porta-filtro, borbulhadores, bomba e medidor de gás seco) é testado antes e depois de cada corrida.
  4. Coleta ponto a ponto: em cada ponto a equipe lê a pressão do Pitot e a temperatura, calcula a vazão de sucção necessária e ajusta a bomba. O tempo em cada ponto é igual.
  5. Recuperação da amostra: o filtro é retirado com cuidado e o bocal e a sonda são lavados para recuperar o material depositado nas paredes, que também conta como emissão.
  6. Pesagem e cálculo: filtros e resíduos de lavagem são secos e pesados em laboratório, e a concentração é calculada em base seca, nas condições de referência.

O método de material particulado é a ABNT NBR 12019, com equivalentes CETESB e USEPA. Em muitas licenças, a mesma campanha inclui metais, névoa ácida ou outros poluentes coletados com trens isocinéticos semelhantes.

O que a empresa precisa preparar

A maior parte dos atrasos e das campanhas canceladas tem origem em questões de infraestrutura, não no método. Antes de agendar, verifique:

  • Tomadas de amostragem: luvas ou flanges nas posições corretas, com diâmetro compatível com a sonda e tampas que abram sem ferramentas especiais. Tomadas soldadas próximas a curvas ou a ventiladores costumam exigir reposicionamento.
  • Plataforma e acesso: plataforma com guarda-corpo, rodapé e espaço para manobrar a sonda pelo comprimento do diâmetro do duto. Escada fixa ou outro acesso seguro, liberado pela área de segurança do trabalho.
  • Energia: ponto de energia próximo à plataforma, com capacidade para bomba, aquecimento da sonda e do filtro.
  • Operação estável: processo funcionando na condição de rotina prevista na licença, sem partidas, paradas ou sopragem de fuligem durante as corridas, salvo quando o plano de monitoramento pedir especificamente essa condição.
  • Registro de produção: dados de produção, consumo de combustível e funcionamento do sistema de controle (filtro de mangas, lavador, precipitador) no período de coleta, para anexar ao laudo.
  • Documentação: licença, condicionantes e plano de monitoramento, para que os parâmetros e o número de corridas sigam exatamente o que foi exigido.

Quando a chaminé ainda não tem estrutura adequada, vale fazer a avaliação e a adequação dos pontos antes da campanha, em vez de improvisar no dia.

Como ler o laudo de material particulado

Antes de comparar o resultado com o limite fixado na resolução aplicável ou o valor definido na licença, confira alguns itens:

  • se cada corrida tem isocinetismo dentro da faixa do método;
  • se os testes de vazamento foram aprovados antes e depois;
  • se a concentração está expressa em base seca e corrigida para o oxigênio de referência, quando exigido;
  • se a condição de operação está descrita e é compatível com a rotina;
  • se o laboratório que emitiu o laudo é acreditado para o ensaio, com o escopo correspondente.

Para fontes novas, os limites de emissão vêm da CONAMA 382/2006; para fontes instaladas antes de sua vigência, da CONAMA 436/2011. Unidades de tratamento térmico de resíduos seguem a CONAMA 316/2002, e em Minas Gerais a DN COPAM 187/2013 também entra no enquadramento. Saber qual delas se aplica evita comparar o resultado com a tabela errada.

Quando a dispersão das emissões no entorno também é exigida, os dados de vazão, temperatura e taxa de emissão medidos na chaminé alimentam o estudo de dispersão de poluentes.

Como a GeoAvaliar pode ajudar

A GeoAvaliar realiza amostragem em dutos e chaminés com escopo acreditado pela Cgcre segundo a ABNT NBR ISO/IEC 17025, incluindo material particulado, gases e os parâmetros auxiliares descritos aqui. A equipe pode avaliar previamente as tomadas e a plataforma, indicar a adequação necessária e planejar a campanha conforme a licença. Para conhecer o escopo, consulte a página de acreditação Cgcre ou fale com a equipe técnica.

Perguntas frequentes

Toda medição em chaminé precisa ser isocinética?

Não. A exigência de isocinetismo vale para poluentes particulados, como material particulado, metais associados às partículas e névoas. Gases como CO, O2, NOx e SO2 se distribuem de forma homogênea no fluxo e podem ser coletados sem acompanhar a velocidade do gás, embora a velocidade e a vazão ainda sejam necessárias para calcular a taxa de emissão.

O que acontece se a fábrica reduzir a produção durante a coleta?

A amostra passa a representar uma condição que não é a habitual, e o órgão ambiental pode não aceitar o laudo. A campanha deve ser feita na condição de operação prevista na licença ou no plano de monitoramento, e o laudo precisa trazer os dados de produção registrados no período.

Quanto tempo dura uma campanha isocinética?

Depende do número de pontos da seção transversal, da quantidade de corridas exigidas pelo método e dos parâmetros pedidos. Uma chaminé com acesso pronto, flanges em bom estado e operação estável costuma ser amostrada com muito menos interrupções do que uma que exige montagem de andaime ou ajuste de tomadas no dia.

O resultado sai em concentração ou em taxa de emissão?

Os dois. A concentração é obtida pela massa coletada dividida pelo volume de gás amostrado, normalmente expressa em base seca e corrigida para o teor de oxigênio de referência quando a resolução aplicável exige. A taxa de emissão resulta da concentração multiplicada pela vazão medida no duto.

A empresa precisa adequar a chaminé antes de contratar a amostragem?

Muitas vezes sim. Sem tomadas de amostragem na posição correta, plataforma segura e acesso, a coleta não segue o método. A adequação dos pontos de amostragem pode ser avaliada antes da campanha, o que evita mobilizar equipe e equipamentos para uma chaminé que ainda não comporta a medição.

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